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Picolés entram na rotina de centros cirúrgicos

Ele pode ser colorido, de leite, de frutas ou uma mistura dos dois. De qualquer jeito é praticamente unanimidade: agrada crianças; transporta adultos para a infância ou simplesmente embala casais de namorados em tardes de verão. Este é o picolé, descoberto por acaso por Frank Epperson, um garoto de 11 anos, lá no início do século passado, em São Francisco, nos Estados Unidos.

Cem anos depois, a ciência encontra outra propriedade para esse pedaço de gelo no palito. Em salas pré-operatórias, um tipo de picolé com sabor mentolado diminui o desconforto da sede causada pelo jejum em pacientes que aguardam cirurgia.

A enfermeira Patrícia Aroni utilizou uma receita, com pequenos ajustes na fórmula já utilizada após cirurgia bariátrica, para testes em pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP. A pesquisadora estudou sua receita mentolada em pacientes que passam por longos períodos de jejum antes dos procedimentos cirúrgicos.

Na pesquisa, Patrícia ofereceu o picolé para 20 pessoas no pré-operatório, enquanto outras 20 receberam apenas o padrão de rotina nesses casos. Após analisar os dois grupos de pacientes, a pesquisadora verificou que, ingerida três horas antes da cirurgia, a fórmula gelada diminuiu significativamente a intensidade e o desconforto da sede.

Esses resultados foram observados após 20 minutos do término da degustação. Ao tomar apenas uma unidade do sorvete, o paciente  ficou satisfeito e não solicitou maiores volumes de líquido. O conforto verificado no paciente, segundo Patrícia, faz do picolé mentolado uma alternativa viável, de baixo custo e de boa aceitabilidade. E, também, “faz refletir sobre a necessidade de se olhar para a prática clínica e visualizar o que poderíamos fazer para melhorar a qualidade no cuidado prestado ao paciente. Esse estudo quebra o paradigma de que o paciente cirúrgico precisa passar sede para ter uma cirurgia segura.”

Pacientes no pré-operatórios são mantidos em jejum de líquidos e sólidos. A medida é de segurança contra o risco do conteúdo gástrico ser aspirado durante a anestesia; mas cada alimento necessita de um tempo de jejum diferente. “No caso da água, o tempo de jejum recomendado pela organização científica American Society of Anesthesiologists é de duas horas”.

Apesar dessa indicação, a enfermeira, que participa de um grupo de pesquisa em sede (GPS) que estuda a sede de pacientes tanto no pré quanto no pós-operatório, garante que grande parte das equipes de saúde, públicas e  privadas, costuma usar medidas não padronizadas e muitas vezes ineficazes para resolver a questão da sede nesses pacientes. Muitas vezes são “mantidos em jejum de sólidos e líquidos por períodos muito maiores do que o recomendado. Isso porque, não existem protocolos bem definidos sobre tempos menores de jejum. O jejum de água torna o momento ainda mais estressante”.

Sabor e aroma de frescor na boca

O estudo comparou o conforto e desconforto da sede no pré-operatório de 40 pacientes, utilizando escalas de intensidade cientificamente aprovadas e que garantiram a coleta de informações antes e após a degustação do sorvete. Como resultado final, Patrícia concluiu que o picolé mentolado é uma boa estratégia para matar a sede.

A enfermeira conta que outras formas de manejo da sede já foram testadas, como o creme mentolado, picolé de gelo e goma de mascar. Mas, para o pré-operatório, o picolé mentolado foi testado pela primeira vez na realidade nacional. “Devido as características de temperatura e sabor, o picolé mentolado tem potencial para ser melhor aceito entre os pacientes no pré-operatório. Além de ser uma estratégia fria, que sabidamente proporciona maior alívio da sede, ele tem sabor e aroma que auxiliam no refrescamento de cavidade oral.”

O uso do picolé mentolado no centro cirúrgico está em implementação no Hospital Universitário de Londrina, que já se prepara para o treinamento de sua equipe de saúde. Além dessa instituição, a ideia é divulgar os resultados da pesquisa para mais instituições. No dia 26 de março, a orientadora do estudo, professora Cristina Maria Galvão, da EERP, apresentará os resultados do estudo no AORN Global Surgical Conference & Expo 2018, em Nova Orleans, Estados Unidos.

Receita ativa impulso nervoso que sacia a sede

O picolé mentolado utilizado na pesquisa é uma formulação de 30ml, congelada no palito e feita com mentol dissolvido em álcool de cereais, água ultrafiltrada e sacarina (um tipo de açúcar). O congelado tem gosto e aroma parecidos com uma bala de menta e é ingerido pelos pacientes três horas antes da cirurgia.

Patrícia explica que substâncias frias e mentoladas ativam um receptor de temperatura que fica na cavidade bucal. “Esse receptor, quanto ativado, envia uma mensagem a região cerebral relacionada ao alívio da sensação de sede”. Como se trata de um impulso nervoso, o paciente não precisa ingerir grandes quantidades para matar a sede. “Aí entra a vantagem do picolé mentolado, em que pouca quantidade dá a sensação de saciedade da sede. Não é preciso, por exemplo, de um copo de água”.

Fatores emocionais também contribuem para a intensificação da sede desses pacientes: “A ansiedade pré-operatória causa o ressecamento da cavidade oral e consequente liberação do hormônio antidiurético, o principal hormônio relacionado a sede”, explica. Uma vez que a sede pode ser causada também por conta da ansiedade, o paciente pode sentir sede mesmo não necessitando de água.

A tese O uso do picolé mentolado para manejo da sede do paciente no pré-operatório: ensaio clínico randomizado, foi defendida na EERP em dezembro de 2017. Orientada pela professora Cristina Maria Galvão e com coorientação da professora Lígia Fahl Fonseca.

Mais informações: aronipatrícia@gmail.com

Por: Stella Arengheri.
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